sábado, 3 de novembro de 2018

Fofoca bélica


Que eu via a parede e que todos os outros também viam, tenho certeza, só que eles não queriam ver, não sei por que, e prendiam quem via. [...] Só ontem cheguei à conclusão de que se trata de um enorme ovo. Que estamos todos dentro dele. Mas é um ovo que diminui cada vez mais, cada vez mais, nós vamos ser todos esmagados por ele. Não sei por que os homens não se armam de paus e pedras para furar a parede. Seria muito fácil, a casca de um ovo é tão frágil.
O ovo, Caio Fernando Abreu

Tudo bem, eu conto. Com certeza, está frio. Deus me livre de fofoca, mas eu me rendo: conto, conto tudo. Homem! Se disserem que fui eu que falei, nego até a morte. Não tenho nada a ver com isso. Deus me livre de fofoca. Mas que linda tarde.

Pois então. O Aluno Messias tinha nascido gay. Metido numa bolha assassina que tudo devorava pra ficar mais opulenta, não podia contar pra ninguém. Disfarçava o olhar pros garotos com cálculos mais complexos do que os que aprendia em matemática, um samba do crioulo doido de números desconectados da realidade. O ensino era todo formalista, até na geografia política, que insistia no assassinato de um rapazote da realeza decadente como causa de uma guerra mundial. Máquina de aprovação nas provas de marcar xis no vestibular: decorem isto, isso e aquilo que os favelados vão ser deixados pra trás. Messias guardava tudo de coração pra reproduzir nas provas e manter a bolacha azul legionária no peito, conseguir novas insígnias e cordinhas nos ombros. A entrega das correções pelos professores era momento de espreitar as notas sempre questionáveis dos concorrentes, brigar com todas as armas pra que os colegas fossem reduzidos a pó. Afinal, era Messias que ia colocar todo mundo não só literalmente sob seu coturno. Com apoio admirador do cadeirante Capitão Sarnento (desses que já idosos nunca passariam de capitão), ele gostava de formar bando com outros bully boys pra taxar de viadinhos os que se atreviam a permitir qualquer efeminação na aparência, nos gestos ou na voz. Ia à capelinha evangélica nos intervalos pra identificá-los, era lá que eles tentavam se proteger negando-se invertidos e demonizando os próprios desejos.

No casebre dito de Cristo havia também a Aluna Campagnolo, pastora de recreio. Conhecida fraquejada dos outros, era uma fulana pega pra criar por uma vagabunda nascida sem útero que tivera o desplante de se casar pra trepar sem fins reprodutivos. A guria de contente sentimento de ódio lúmpen fazia campanha pra que os sargentos fiscalizassem não só o tamanho do cabelo dos mancebos sob as boinas, mas também o pentelho dos sovacos das moçoilas. A bolha assassina de Messias era o paraíso da meritocracia liberal combinada com vigilância e repressão das liberdades individuais: em nenhum lugar do mundo havia tanta gente deliciosamente querendo se destruir. Que vencesse o melhor em execração. E quem não tivesse cacife pra levantar seu coturno sobre as cabeças dos outros que se subjugasse. Mas Messias era homem de bem: quem pagasse seus lanches e almoços na cantina ganharia proteção contra sua própria gangue de bully boys. Com uma lambida em sua carabina  fora o dedo-duro da delação, soplón, snitch, cafteur, firmemente apontado –, podiam até fazer parte da milícia. Era assim que funcionava, na máfia de Messias e Campagnolo. Aluno Marques via aquilo tudo distanciado e tinha um plano maior, uma destruição mais destrutiva. Sim, senhor, estou dando a você, meu amigo, o pressentimento de vingança, porque, como avisou o professor Antonio Candido, no mundo liberal é assim: o eixo de todas as condutas é a volta por cima e o revide. Dessarte a catarse alivia das tensões, ninguém precisa se meter a mudar realidades como a deste mexerico. Meu deleite é o seguinte, homem: criar paixões e esvaziá-las pra no fim a gente se sentir bem leve.

Mas antes digressionemos à vida privada de Campagnolo, adoro vida privada. A mãe dela, como já contei, era uma vagabunda que nasceu sem útero e mesmo assim se casou, pra dar bastante aquela boceta de onde não sairia nada que prestasse. Amotinava as amigas contra a buzina de bicicleta do vendedor ambulante de pães e gritava de ódio quando paravam o trânsito comprando bala, pipoca ou pururuca de favelado no sinal. “Não tem lei?”, ladrava ela, indignada. Ainda assim, reclamava de direitos trabalhistas pra sua atividade como dona de casa, comunista safada, como se tarefas reprodutoras não fossem sua obrigação natural, por isso beijava o nó do chicote que a açoitava e se recompunha. Culpa da empregada, pra quem tinham dado tudo, cesta básica fora de hora, presentinho de natal, viagem com a família pra limpar, cozinhar, cuidar das crianças, tinham dado tudo praquela ingrata, mas ela aceitou emprego numa casa que assinava carteira e foi embora. Traíra.

Já o pai de Campagnolo era um caloteiro filho da puta que, mesmo recebendo ajuda pra pagar suas dívidas, só queria saber de pegar a grana pra viajar pro estrangeiro. Coitado, voltava e, sem suportar a pressão, falava em se suicidar, a família de católicos, espíritas e evangélicos precisava dar apoio. O problema do mundo pra todos eles era a corrupção dos políticos, todos iguais, o que justificava a manutenção do ódio que os fazia saltitar de alegria por dentro. “Político bom nasceu morto”, era o lema deles pra legitimar a campanha pelo pior. No mais praticavam caridade.

A cordial senhora Campagnolo tinha na Igreja (templo, centro, culto, o caralho) o gozo no disse-que-disse, e purgava um pouco da raiva que sentia de todo mundo assistindo a programas violentos na televisão. Ao comentar com brilho nos olhos os assaltos, a matança, os estupros, sem contar os amaziados da família, as aborteiras da vizinhança e os travecos do salão, até baixava o tom de voz pra proteger as crianças dos prazeres adultos. “O pequeno empreendedor, miudinho mesmo, mas daqueles que se acha proprietário do mundo, foi confessar o desquite pro futuro genro, você acredita? Chorou os pecados pro major, morrendo de medo de perder a noiva”. Ora, pedir a benção pra essa gente é uma troça. Gente que adora poder voltar com um “Deus te abençoe”, quase uma praga. “E a filha do general que ainda mora com os pais, uma solteirona virgem, balofa e infantilizada com quase quarenta anos na cara? Com medo de sair de casa, a imbecil, à espera de uma pensão mais gorda do que ela mesma”. Homem! O espaço doméstico é uma delícia de viver.

Na família de Messias as coisas eram parecidas: os homens eram todos militares. O avô, pai dos milicos, tinha trabalhado em mina e, pra evitar morrer precocemente como seus ancestrais, com os pulmões petrificados, foi pra Segunda Guerra encher a burra de dinheiro. Voltou pro Brasil e com a lanternagem, aprendizado bélico, construiu sua oficina mecânica. Uma família que foi de escravos a capitães do mato, mundo moderno, desculpem, na verdade foi de mineiros das Gerais a coronéis do Brasil. Um deles inclusive se aposentou por invalidez e você pode imaginar, meu amigo, com que honestidade conduziu o processo de entrada endinheirada prematura pra reserva. De operários a militares, self-made men como aquele que mais odeiam, aquele pra quem foram ensinados a rosnar, aquele que de metalúrgico chegou a presidente da República. Um jumento total, deviam tomar dele o posto executivo, não, não, não do lanterneiro que tinha quarta série e se atrevia a gerir uma empresa de conserto de automóveis, mas do Luladrão petralha que não tinha diploma mas a pachorra de administrar o país. Pra capitão do mato, pobre tem mais é que ir preso, implanta as drogas na mochila e manda o preto pra cadeia. E se disserem que somos racistas lembramos que nas nossas corporações há tanta negada quanto capitães do mato sempre puderam ser gente de cor. Nas montanhas negras feito agulhas, cursamos disciplinas como Teorias e Técnicas de Defesa do Empresariado (ou do Sinhô, Siô, Sô, “Tá confuso os tempos, sô”) e Nacionalismo com Ênfase em Entreguismo Privatista, mais avançada do que as tradicionais Nacionalismo I, II e III, cadeiras que tinham atrapalhado um pouco as gerações anteriores. Tudo Sem Partido, feito jornais que se dizem neutros, isentos, imparciais. Ideologia é algo a ser excluído, ideias contrárias saem e fica só o que chamamos de conhecimento técnico. Técnico, sim, hu-hum.

Marques tinha pegado a arma no armário da mamãe. Entrou no Colégio com ela na cintura, batendo continência pra sentinela na entrada. Nenhuma Mae West pra notar o volume sob o abrigo de sexta-feira. Mais tarde, Marques espreitou o corredor e deu início à própria dança. Invadiu a sala do Capitão Sarnento, derrubou o esclerosado da cadeira de rodas e cuspiu-lhe o nome de guerra na farda. Quase que concomitantemente atirou em suas fuças. Depois saiu caminhando e entrando nas salas. Fuzilamento em câmera lenta, pra gente aproveitar bastante a vendeta acompanhada de uma música clássica bem gostosa. Passo a narrar no presente gramatical pra te colocar melhor dentro da cena. Um monte de cabeça estourando, mas pra dar ares de realidade desenvolva-se desenlace antecipado e imprevisto: o grande vilão Messias é um dos primeiros a morrer, escorregando em sangue dos outros e tombando com o pescoço na quina de uma mesa. Nada de confronto final entre grande carrasco e herói humilhado. Campagnolo, sim, toma uma fuzilada no cu, antes dos tiros, enquanto tenta fugir. De mulher a gente se vinga com mais prazer pra extravasar a misoginia. Nessa altura tudo vira rebelião e os outrora deprimidos, que por tanto tempo precisaram de psiquiatra e comprimido, riem de orelha a orelha. Um deles caga na bandeira verde-amarela: defecar nunca proporcionou tanto prazer aos bundas-sujas da Columbine à brasileira. Por fim tudo começa a pegar fogo e a explodir. Caminhando em direção à saída, como top model em passarela, nosso anjo vingador, Marques, aquele que ninguém leu e mesmo assim será acusado de autoria deste terror. Deve ter sido abatido em algum momento e isso aqui é alucinação post-mortem, quando se pergunta o que seria, afinal, o inferno e o céu.

Mas eu não disse nada. Deus me livre de fofoca, não tenho nada a ver com isso. E este tempo, hein? Eu gosto de tempo frio. Sim, sim, é tudo brincadeira, meu amigo. Retórica livre de politicamente correto, pra entreter. Não precisa levar a sério. Homem! Não vai dar em nada. Mas não fui eu que disse. Como o clima está agradável!

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Principais pontos de partida do experimento:


sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Rosa choque

Espetáculo do coletivo Os Conectores. Encenação assistida em 27 de setembro de 2018, em Belo Horizonte. A imagem que ilustra o espetáculo neste post foi retirada da página de divulgação do grupo no Facebook: https://goo.gl/qNCUWu.

Alguém imaginara ouvir que as mulheres, um peso morto, dominariam minha acrópole, lacrando pórticos com barras e ferrolhos?
Coro de homens em Lisístrata

Em A origem da família, da propriedade privada e do Estado, Engels define patriarcado. Todo o motivo da supremacia masculina decorre da descoberta do papel do homem macho na reprodução da espécie, momento que data do final do neolítico e que iniciou a domesticação de grandes animais  até então não havia  suficiente acumulação de riquezas nem para que fosse possível a manutenção de escravos (que pra existirem precisavam ser capazes de produzir além do necessário para a própria sobrevivência), nem para que fosse fundada a grande propriedade. Dessarte, é no neolítico que os bens de fortuna para acumulação e transmissão por herança são instituídos, e são instituídos na família (família, do famulus, tem etmologia em “escravo” e “criado doméstico”, homens e mulheres que diante da violência se veem obrigados a submissão patriarcal). Percebendo esse antagonismo de classes como o primeiro que apareceu na história, tenha-se consciência da determinação de classe na condição da mulher.

A feminista brasileira Rose Marie Muraro avança na Introdução a O martelo das feiticeiras, inclusive reiterando a definição de patriarcado diante de contestações que viam na limitação dos objetos de pesquisa de A origem da família, da propriedade privada e do Estado supostas incongruências: além dos Iroqueses estudados por Engels, que não oprimiam as mulheres, descobriram-se outros povos que as oprimiam. Entretanto, insiste Muraro que permanece o momento chave da possibilidade do patriarcado: acumulação de patrimônio e transmissão por linhagem paterna.

Além de haver apenas deusas mulheres até mais ou menos oito mil anos atrás, com imagens que atestam os vínculos das divindades com a reprodução da espécie, observe-se o que diz Muraro sobre o período em que os homens não sabiam da própria fertilidade:

Na adolescência, a mulher tem sinais exteriores que marcam o limiar da sua entrada no mundo adulto. A menstruação a torna apta à maternidade e representa um novo patamar em sua vida. Mas os adolescentes homens não possuem esse sinal tão óbvio. Por isso, na puberdade, eles são arrancados de suas mães pelos homens, para serem iniciados na “casa dos homens”. Em quase todas essas iniciações, o ritual é semelhante: é a imitação cerimonial do parto com objetos de madeira e instrumentos musicais. E nenhuma mulher ou criança pode se aproximar da casa dos homens, sob pena de morte. Daí em diante, o homem pode “parir” ritualmente e, portanto, tomar seu lugar na cadeia das gerações.

À vista disso, houve um tempo histórico em que a inveja do pênis denunciada por Freud não fazia sentido. O que se tinha era inveja do útero, e isso levou os homens à elaboração ritual que depois, na consolidação do patriarcado, daria em parto pela costela.

Tomando esse pressuposto dialético, Rosa choque fica ainda mais interessante. Isso porque o espetáculo enuncia a vingança milenar que a mulher sofre por ter colocado, nos tempos mais remotos de existência da humanidade, os homens na condição de invejosos.

Entremeados por depoimentos dos atores e leitura de notícia de jornal atualizada a cada apresentação, dois episódios compõem a peça. Observe-se o primeiro: a denúncia de estupro, numa delegacia, pela mulher que sofreu a violência. Numa inversão interessante, o ator faz a mulher estuprada e a atriz o delegado. A opressão vai se acentuando, com a culpa recaindo sobre a denunciante, até que o jogo de luz e a fisionomia dos atores indicam o momento de troca de personagens: o emocionado se torna rígido e a rígida, emocionada. Além de evidenciar o distanciamento dos atores em relação a uma entrega empática, o efeito risível criado até então se eleva demandando a percepção de que comédia é coisa séria. Esse switch (como um interruptor mesmo, uma chave elétrica) para a troca de figuras sociais entre os atores se repete algumas vezes, o que confere força progressiva ao movimento: no homem, o feminino é ridículo; na mulher, vulnerabilidade. Trata-se de mecanismo de perpetração da mulher na condição submissa que, como politicamente aponta o espetáculo, é cultural e passível de ser transformada.

Aí até as engrenagens mais explicitamente técnicas utilizadas para ativar a imaginação do público são de lamber os beiços. Por exemplo: a fresta que se movimenta em projeção mapeada numa tela transparente torna mais visível o que tem por trás de si. O ator, perseguindo essa fresta que sempre muda de lugar, tenta falar por trás dela, onde fica visível, mas concomitantemente com a movimentação da projeção é interrompido pela atriz. O recurso estético fortalece na percepção, portanto, o mecanismo de interrupção das falas, a busca desesperada por uma brecha para ter voz, o silenciamento.

É com o mesmo mapping que se denuncia a religião como poder cultural dos homens: o psicólogo travestido de psicóloga, atendendo a estuprada travestida de estuprado, aparece em imagem mapeada numa cabeça flutuante para a lavagem cerebral de Deus travestido de Deusa. O efeito metafísico que se expõe ridiculamente metafísico, denunciando a técnica do poder ritual dos homens, é de rolar de rir.

O segundo episódio da peça dá conta do feminicídio socialmente justificado no discurso do amor monogâmico. A questão também é exposta por Engels. A monogamia, é óbvio, serve para garantir a linhagem paterna, o que o gay ciumento da atualidade fetichiza, já que para ele não existe o sentido histórico da aparição. Mesmo a prostituta, dita profissão mais antiga, tem seu sentido histórico, vide a hipocrisia do heterismo, que mantém a liberdade sexual masculina no mundo monogâmico. Como diz Engels, na sociedade patriarcal o que diferencia a mulher da prostituta habitual é que, enquanto a segunda se coloca no lugar de assalariada, a primeira se vende uma única vez e para sempre, como uma escrava. Vistas como propriedade para fins de reprodução pura, exclusiva de um único homem, como elas podem se defender da opressão mais violenta e mesmo do assassinato?

Rosa choque, ao trazer o feminismo para a discussão, se coloca na ordem do dia  basta ver quem assumiu a vanguarda da luta política hoje. Do mesmo modo, na Revolução Russa, foi com as operárias tecelãs do bairro de Vyborg, em Petrogrado, que tudo começou. Numa apropriação de imagem do espetáculo, quem vier atrás de quem queima os sutiãs, que venha queimando as cuecas.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Uma boquinha na Terra


A liberdade, Sancho, não é um pedaço de pão.
Dom Quixote

Há muitos anos eu não encarnava na Terra. Acho que tinha esquecido que é feito cheirar cocaína: no dia seguinte, com a ressaca se convertendo no desânimo que se instaura por pelo menos uma semana, fica fácil dizer que nunca mais, mas passam-se alguns meses e no calor de festa você se faz de esquecido e dá de novo o bendito raio. Claro: pra mais uma vez no dia seguinte, merda, dizer que nunca mais, recomeçando o ciclo.

Eu já devo ter dito muitas vezes que nunca mais. Contudo, passeando pela Terra feito Isaac agarrado em Angélica, do filme do Manoel de Oliveira, senti o aroma de churrasco e não pensei duas vezes: vou reencarnar. É isto: me refiz carne pela comida. Sou evoluído, não precisava voltar, mas a fome falou mais alto. Outros seres, de luz como eu, me alertaram: se tu queres retornar àquela selvageria onde se come tudo o que é vivo – porque lá ninguém se alimenta do que não é orgânico –, é por tua própria conta e risco. Vai ver que tu ainda precisas evoluir na Terra, superar essa necessidade canibal de devorar o semelhante. Não dei ouvidos. Só queria ser um tubo que engole e desengole coisas, fazer uma boquinha, traçar minha irmã escarola.

Nasci filho de uma senhora que, até mais ou menos meus dois anos, só permitia que eu me alimentasse de seu leite. Tanto que minha primeira palavra, longe de ser mamãe ou coisa parecida, foi “água”. Ou seja, antes da necessidade de saciar qualquer apetite, eu tava morrendo de sede. A comida não era propriamente escassa, mas minha mãe, natureba convicta, não permitia carnes nem nada industrializado. Potes de conservas em supermercados me faziam salivar, mas só seria possível se comprasse escondido. Doces, então, não com consentimento da senhora minha mãe. Ah, Mamãe. Mamãe era uma hippie autoritária.

Foi aí que conheci Wellington, meu colega de sala na primeira série. Saíamos às ruas para catar latinha e, com o dinheiro, comer fast-food. Carne de minhoca, picles, molho gorduroso. Minha boca enche d’água de lembrar. Se mamãe soubesse, teria um motivo não racista para ser contra minha amizade com Wellington.

Mamãe não gostava de me ver com Wellington porque tinha medo de que eu fosse confundido com pivete na rua. Eu xingava aquilo de racismo. Ela era pós-moderna, toda apoiadora das lutas identitárias, chorava à beça. Acreditava que lágrima tinha poder de provar alguma coisa, assegurar sua imagem tilelê chic de representante da cultura gratidão, sei lá. Talvez a compaixão por sua miséria materna me convertesse – sentimentos têm esse poder. Eu encontrava mamãe num cantinho da cozinha, sentada no chão; os cabelos pra cima, encostados nos azulejos da parede, eram indício de que o corpo tinha melodramaticamente escorrido até se estatelar. Na imaginação de mamãe, o mundo devia ser um lugar cercado de câmeras, como as que ainda não existiam em lojas onde pediam para eu e o Wellington levantarmos as camisas antes de sair.

Eu dizia pra mim mesmo: quando for maior, vou me livrar das tiranias de mamãe, ser independente e abocanhar tudo o que eu quiser. Cresci e, em vez de comer, comecei a beber e a fumar. Até fazia boca de pito, mas custei pra sacar que tava gastando mais com vícios inúteis do que com o que tinha me movido pra Terra. A culpa era das promessas publicitárias investidas em hormônios, o que me impelia para atividades que acabavam em sexo, uma perda de tempo total. Superada a adolescência, fui ler Freud, aquela coisa de fase oral, e discordei, pôr na boca, mastigar e engolir não era mero estágio preparatório prum sapeca-iaiá. Meu tutu com linguiça não podia ser considerado substituto regressivo de porcaria nenhuma. A busca pela sustança, no meu caso, tinha de ser não só antecedida pela necessidade de reprodução, mas também autossuficiente. Aqui não devia nunca ser libido convertida em energia empregada na apetência.

Quando minha primeira namorada terminou comigo, precisei provar pra ela que me abandonar tinha sido um péssimo negócio. Comecei a me alimentar feito mamãe, a frequentar academia, a estudar pra concurso. Me sentia um hamster preso numa roda, correndo sem parar. Então de repente já tava namorando outra menina, não tinha mais o menor interesse na ex, mas continuava correndo. Sonhava que um dia seria gordo que nem Hitchcock, andaria sempre alinhado e teria o mesmo ar de mistério; usaria feito Borges uma bengala. Ninguém ia pensar que deixei a roda de hamster, carreira promissora, pra viver que nem glutão, me empanturrando de guloseimas. Eu seria um artista recluso, sobre o qual se especulariam fantasias fantásticas. Parecia a única saída.

Mistério, só Wellington mesmo: ainda na nossa infância, ele tinha sumido junto com o bloco de comunidade onde morava, lá perto de casa. É que, com a expansão do centro vulgo especulação imobiliária, enxotaram os favelados pruma região ainda mais periférica. Nem tudo pode com dinheiro, mas dinheiro pode com tudo, logo dinheiro é melhor. Aí juntar dinheiro vira fim em si mesmo, só vale nossa desgraça. No lugar onde ficava o quintal da casa do Wellington, cheio de pé de couve, uma jabuticabeira, árvore de carambola, chuchu se embrenhando na cerca, mangueira, no lugar disso tudo agora tem mais um prédio. Mais segurança, cerca elétrica sobre todos os muros, mamãe mais tranquila. Acho estranho couve, jabuticaba, carambola, chuchu, manga, enfim, alimento que é de coletar no quintal, de repente no supermercado, onde nem se sabe que existe pé dessas coisas. Antes, quando chão não era tudo de pedra, tinha tanto trem de graça. Agora preto passa no bairro e a associação de moradores já chama a polícia. Será que o Wellington tá se esbaldando de deglutir gulodices, ou será que também entrou numa dessas rodas de hamster? Casou, teve filhos, virou pastor evangélico, entrou pro tráfico, comprou uma emissora de TV de tanto trabalhar como camelô, liderou operários pra ascender em carreira política. Presidente da república, desses brasileiros que não desistem nunca. Sem tempo pra comer, virou bife. Bife Wellington, brand management. Neste mundo todo mundo nasce com fome e morre com fome. Por falta de comida ou por falta de tempo.

E quando a comida abunda e você acha que vai ter tempo, encher o cu, comer até transbordar dos dentes do fundo, tá que nem eu: com doença celíaca, intolerante a lactose, a comida entalando no esôfago, refluxo, pressão alta, diabetes. Os espíritas daqui dizem que fui eu que planejei isso, pra crescer com o sofrimento, mas é a justificativa deles pra manutenção das rodas de hamster. Logo eu, um ser de plano mais evoluído, imagine só. Esses espíritas daqui não sabem de nada, são uns doidivanas, porque devo ter involuído umas três vidas no arranjo da concorrência, com o tanto de ódio que alimentei das rodas que giravam mais rápido e com as risadas que dei das rodas que custavam a desenvolver o movimento circular. Religião sempre serviu pra isso, colocar esses caras pra nem sequer pensar em mudar as coisas. Ficam aí alucinados, deliram mesmo, se achando espíritos maiores, acreditando que têm como eu algum poder de chegar no entrevidas e estabelecer intenções encarnatórias. Quem eles pensam que são na fila do pão astral, pra pensar que também podem passar na frente sem que sejam cobertos de bolacha?

Acho que se eu não tivesse entrado em roda de hamster, não seria hoje essa personificação da enfermidade cheia de restrição alimentar, enclausurada na dieta. Vida na Terra é que nem cocaína, no duro, agita pra percepções imediatas, completamente alienantes, e até tira o apetite. E o injusto é que não existe outro lugar tão bom pra comer. Falando sério, batata que nunca mais piso aqui de novo.

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Principais pontos de partida do experimento:


domingo, 8 de julho de 2018

Cinema: suprassunção do teatro


A teatralidade é substituída pela intervenção esclarecedora e interpretativa da câmera, que se torna “narradora”, criando intensidade e dramaticidade através da ênfase óptica.
Anatol Rosenfeld

O cinema, enquanto conceito, é a suprassunção do teatro, ou seja, o cinema incorpora os conceitos do teatro para tornar-se novo conceito. Em outros termos, o que se chama sétima arte é ao mesmo tempo negação, afirmação e elevação do teatro (assim como, insiste-se tanto neste blog, o teatro épico é ao mesmo tempo negação, afirmação e elevação do drama).

No começo, o que se projetava no cinema não passava de filmagem do palco com a câmera enraizada no meio da plateia, isto é, enquadramento estático e aberto, pegando o corpo inteiro dos atores e a completude do cenário. Tratava-se de algo como peça gravada, nada mais do que isso, mesmo se se pensar em filmagens externas, em que não se tinha literalmente nem palco nem plateia. Com o tempo, a câmera passa a se mover, narrativamente permeando e cortando a cena. Especialmente com D. W. Griffith, desenvolvem-se ainda mais as formas épicas a partir do aparato técnico. Um zoom in no rosto do ator prestes a dormir, seguido de corte para uma cena em brumas, por exemplo, podia pela primeira vez indicar cinematograficamente a passagem para um plano onírico. O nascimento do cinema se dá, portanto, com sua especificidade que é a linguagem narrativa do corte. (Note-se que certa modalidade ainda muito vigente de cinema, contra os próprios princípios colocado na camisa de força típica de Hollywood, valoriza o disfarce – veja-se bem: o disfarce – do corte em premiações, nas categorias de melhor montagem. Sem contar que manuais de roteiro do tipo Syd Field até hoje pensam a dramaturgia cinematográfica a partir do modelo de ação peripatético.)

Todos os avanços do cinema em seus primeiros estágios retroalimentaram o teatro, que passou a contar, entre outras técnicas, com projeções. Além disso, o teatro começou a reivindicar pra si a necessidade não só do registro, mas de todos os outros avanços possibilitados com o novo meio de produção, o que já se observa na tentativa de Brecht de filmar A ópera dos três vinténs. Não é acaso o desenvolvimento do teatro épico se dar simultaneamente com o desenvolvimento do cinema.

O cinema, como o teatro épico, pode contar ou não com traços incorporados do drama, como o arco dramático. No conto da postagem anterior, por exemplo, esse traço aparece de modo irônico. O mesmo não se poderia dizer de um hipotético filme que heroicizasse a trajetória de camelô a dono de emissora de TV ou o percurso de operário a presidente da república (com direito a slogan “Sou brasileiro e não desisto nunca”). Se levado a sério, o arco dramático, travestido em termos econômicos, não é nada mais nada menos do que liberalismo idealizado. Por isso, um filme político como Arábia, de João Dumans e Affonso Uchoa, é narrado por um trabalhador em tom menor, sem heroísmo, sem superação e sem sequer espírito anti-spoiler (o prólogo trata de avisar de antemão sobre o destino funesto do personagem).

Numa certa recepção de cinema, assim como numa certa recepção de teatro, o espectador demanda escuridão e silêncio para fruir dramaticamente a obra. Há aí necessidade de envolvimento com os personagens e com a trama em que eles estão metidos, num exercício de imersão num universo à parte que desliga da realidade objetiva, proporcionando alívio das frustrações provocadas pela corrida de ratos (observe-se que a função deste tipo de arte é análoga à função alienante da religião). Já uma obra política avança para a reação do público, basta se observar, por exemplo, o distanciamento da plateia em salas de cinema que recentemente exibiram o documentário O processo, de Maria Ramos: ninguém fazia “shhh”, reclamando do barulho, durante a exibição do filme que narrou os procedimentos de cassação do mandato da ex-presidenta. Tudo era motivo de comentários, indignação explícita e até algazarra. Os mesmos efeitos Piscator, na medida em que desenvolvia seus experimentos, ia buscando em seu teatro. E também Augusto Boal.

(Iludidos de que a luta de classes foi superada com as derrotas do socialismo no século XX e por isso defensores tácitos do liberalismo e seus acessórios, pós-modernos vão dizer nossa, que antiga, ela tá falando em tendência de estilista da passarela passada, esquerda não é mais isso...)

A dimensão de figura, surgida no expressionismo como suprassunção da dimensão de personagem, aparece em filmes recentes como O jogo das decapitações, de Sérgio Bianchi, em que os atores enunciam menos uma psicologia singular do que a socialdemocracia e seus desmandos, desmandos estes que alimentam o fascismo pulsante nos regimes capitalistas. Essas mesmas dimensões de figura aparecem no conto da postagem anterior deste blog: por um lado as lutas identitárias pós-modernas no campo liberal, e por outro o homem branco hétero cis Miguel no campo fascista (notem-se assim as relações de teatro e cinema também com outras modalidades narrativas).

Esses são só alguns exemplos de como teatro e cinema fazem parte de um mesmo corpo, o das artes visuais. Ambos vão além inclusive como artes do espetáculo, do qual as exposições de artes visuais – pintura, escultura e fotografia – também fazem parte (o interesse no conceito de espetáculo – o tradicional – é justamente o link que produz com a “sociedade do espetáculo”, do Guy Debord). E se teatro e cinema priorizam formas e conteúdos políticos, inserem-se num âmbito ainda mais amplo, o literário de uma maneira geral. Ambos, teatro e cinema, têm muito mais relação do que se imagina, e é preciso tomar cuidado com imposições contrárias, especialmente aquelas que reclamam especificidades como se especificidades pudessem funcionar de modo autônomo. O pensamento dialético não admite separações, que são por princípio conservadoras. Enfim, a que interesses serve a visão de que teatro e cinema são duas linguagens completamente distintas, e que portanto devem, em suas bases de análise, ocupar cada uma o seu quadrado? Aos interesses do mercado teatral, que vive reclamando da impossibilidade de concorrência com o cinema? Que obras tão cheias de especificidades são essas, que dentro do campo das artes cênicas andam encontrando seu próprio nicho?

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Aborto social


A perfeita visão da vindita não se realiza num só momento; requer o encadear sucessivo de acontecimentos que levam do motivo inicial à desforra final.
Antonio Candido

Miguel não só tinha nome de anjo, como ainda por cima parecia uma criança inocente, sossegada, bondosa: cabelos louros cacheados, pele branquinha, curiosos olhos azuis. Subira os lances de escada da empresa desde o primeiro degrau, office-boy, quando distribuía correspondência para pagar a faculdade e um dia ter o trunfo do diploma na corrida de ratos em que haviam transformado o mundo. Agora o sucesso estava realizado: Miguel já era então bem-sucedido, ainda que preocupado na busca por valorizar-se ainda mais, o que fazia menos para alçar-se a andares superiores do que para não perder a posição – afinal, sabia-se herdeiro de ninguém. Saía de férias pra praia, uma semana, nordeste, quando escreveu em rede social que não voltava dos dias de liberdade sem comer uma mulher de cangaceiro. #PartiuMaceió bem hétero, com esse foco discreto no corno, mas não nos percamos em fofocas dos ocultos desejos sexuais do personagem, que depois da postagem silencia de tudo o celular para embarcar no voo. Cochilou quando “o céu caiu”, numa lembrança da reação infantil de quando, já adulto, vira pela primeira vez no mesmo nível as nuvens e a panorâmica azul que desmentia a visão imediata de uma “abóbada” celeste.

Ao descer em Maceió, ainda sonolento, Miguel desligou o modo avião e a chapa azul do firmamento lhe caiu sobre a cabeça: ditos feministas de todos os sexos haviam invadido seu perfil e maculado suas postagens com comentários que não se podiam mais controlar. Miguel até tentou, na verdade: começou deletando o post infeliz, mas os ataques cresciam em outras postagens. Ele então entrou nas páginas pessoais responsáveis pelo massacre, onde infelizmente já havia prints de sua desgraça inutilmente apagada, textões, compartilhamentos sem fim. Os perfis, milimetricamente construídos para funcionarem como exposição de um caráter político-moralizador ilibado, pareciam todos moldurados por indivíduos com handicap identitário que objetivavam se inserir socialmente e ao mesmo tempo se constituir como modelo. Simultaneamente senhores e escravos de si mesmos, estavam eles também na corrida de ratos, nesse jogo de seleção e eliminação a esmo tão bem reproduzido por reality show. E o chefe de Miguel muito contente mordeu a isca sem anzol: armado da demissão justificada, enviou o e-mail com ordens de que seu subordinado já bastante caro – cresceu demais – voltasse de férias e passasse no RH. A empresa não podia ter sua marca vinculada a funcionário com posições machistas ou preconceituosas com nordestinos, ora essa.

Era fim de tarde na Pajuçara e Miguel quase havia se entregado às ondas que o puxavam pro abismo do oceano. Até os cangaceiros, digo, as mulheres de cangaceiros, tinham perdido a graça. Ele estava profissionalmente liquidado. Voltou pro hotel pensando no valor da diária, quanto tempo daria pra sobreviver com o que tinha, e o pensamento em turbilhão o fez tomar o remédio. Indutor de sono era necessidade primordial antes e depois de processos seletivos – da preparação pra reunião em que precisava se destacar ou pra entrevista de seleção a cargo mais elevado, até a análise dos fracassos que o rifavam. Repassar mentalmente tudo, num exercício circular infinito, era um verdadeiro looping do inferno do qual o autêntico rato corredor nunca conseguia escapar sem um medicamento entorpecente.

O pai severo, de um lado, falava em redução da maioridade penal, exigia morte aos bandidos, condenava o desvio das normas sobre os dois sexos e não abria mão da criminalização do aborto. O pai compreensivo exigia respeito aos direitos humanos: se aceitamos liberalismo na economia, é preciso incluir no pacote a busca por igualdade na corrida de ratos e o respeito às liberdades individuais. A mãe aparecia entre os dois pais, duplos um do outro, dizendo-se contente por ambos porque enfim tinha conseguido levar a política pro âmbito doméstico. Que tudo se resolva em família, claro, imagine a barbaridade do contrário. Não é civilizado o espaço público, não. Divórcio em tribunais? Não, minha filha, melhor separação discreta, sem escândalo, tudo aqui na minha sala de jantar. Em família, no espaço gourmet. Entre as quatro paredes do seio da linhagem. É mais higiênico, menos oneroso. Pra quem? Enquanto dizia isso, a mãe se transformava num bufão grotesco pra engatar o riso descontrolado com a repetição da palavra linhagem – que linhagem? – e em seguida, abruptamente em tom sério, aconselhar o pai compreensivo: deixem diminuir a maioridade penal, assim podemos sem risco de represália comer as gostosinhas de dezesseis anos filhas de conservadores. De repente pai compreensivo e pai severo se mesclavam para um linchamento moral. Vai pro seu quarto, repreendiam os papais, os panos de prato nas mãos. Miguel então acorda de um solavanco e quase bate com a cara na câmera da gravação externa, completamente suado e ofegante.

Não era mais só atravessar a rua da Pajuçara pra voltar ao hotel. Miguel havia se transformado num encardido mendigo de praia – mais especificamente a Praia da Estação –, num morador da rua Aarão Reis desses que ganha cobertores nojentos fabricados especialmente para o nicho da mendicância. Ele já sabe que quem pratica a caridade distribuindo a mercadoria de refugo até passa o inverno falando em empatia, mas o sentimento só dura até o sem-teto aparecer instalado na calçada das nossas casas. Miguel, de anjinho a mendigo, que belo arco dramático decadente. Vagabundo safado, a antítese do trabalhador com carteira assinada, bicudado por toda sorte de moralista de redes sociais, mas agora também literalmente, ali em praça pública, a Praia da Estação. Macho escroto, bem feito que perdeu o emprego e esborrachou na condição lúmpen que é o fundo do poço social. Exército de reserva pra desvalorizar a mercadoria força de trabalho e estimular a concorrência deste produto, é isso o que você merece. Vagabundo. Homem fútil. Puto. Safado. Pistoleiro. Depravado. Pilantra. Aventureiro. Desgraçado. Toma, Miguel, anjo caído, demônio, sua única opção agora, que combina com homem branco hétero cis, é pôr-se a postos pra incorporação às fileiras do fascismo, mas não se antes a gente te tacar álcool e acender um fósforo. É assim que nós gostamos. Como diria Machado, nem todas as crianças vingam.

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Principais pontos de partida do experimento: