quarta-feira, 18 de julho de 2018

Uma boquinha na Terra


A liberdade, Sancho, não é um pedaço de pão.
Dom Quixote

Há muitos anos eu não encarnava na Terra. Acho que tinha esquecido que é feito cheirar cocaína: no dia seguinte, com a ressaca se convertendo no desânimo que se instaura por pelo menos uma semana, fica fácil dizer que nunca mais, mas passam-se alguns meses e no calor de festa você se faz de esquecido e dá de novo o bendito raio. Claro: pra mais uma vez no dia seguinte, merda, dizer que nunca mais, recomeçando o ciclo.

Eu já devo ter dito muitas vezes que nunca mais. Contudo, passeando pela Terra feito Isaac agarrado em Angélica, do filme do Manoel de Oliveira, senti o aroma de churrasco e não pensei duas vezes: vou reencarnar. É isto: me refiz carne pela comida. Sou evoluído, não precisava voltar, mas a fome falou mais alto. Outros seres, de luz como eu, me alertaram: se tu queres retornar àquela selvageria onde se come tudo o que é vivo – porque lá ninguém se alimenta do que não é orgânico –, é por tua própria conta e risco. Vai ver que tu ainda precisas evoluir na Terra, superar essa necessidade canibal de devorar o semelhante. Não dei ouvidos. Só queria ser um tubo que engole e desengole coisas, fazer uma boquinha, traçar minha irmã escarola.

Nasci filho de uma senhora que, até mais ou menos meus dois anos, só permitia que eu me alimentasse de seu leite. Tanto que minha primeira palavra, longe de ser mamãe ou coisa parecida, foi “água”. Ou seja, antes da necessidade de saciar qualquer apetite, eu tava morrendo de sede. A comida não era propriamente escassa, mas minha mãe, natureba convicta, não permitia carnes nem nada industrializado. Potes de conservas em supermercados me faziam salivar, mas só seria possível se comprasse escondido. Doces, então, não com consentimento da senhora minha mãe. Ah, Mamãe. Mamãe era uma hippie autoritária.

Foi aí que conheci Wellington, meu colega de sala na primeira série. Saíamos às ruas para catar latinha e, com o dinheiro, comer fast-food. Carne de minhoca, picles, molho gorduroso. Minha boca enche d’água de lembrar. Se mamãe soubesse, teria um motivo não racista para ser contra minha amizade com Wellington.

Mamãe não gostava de me ver com Wellington porque tinha medo de que eu fosse confundido com pivete na rua. Eu xingava aquilo de racismo. Ela era pós-moderna, toda apoiadora das lutas identitárias, chorava à beça. Acreditava que lágrima tinha poder de provar alguma coisa, assegurar sua imagem tilelê chic de representante da cultura gratidão, sei lá. Talvez a compaixão por sua miséria materna me convertesse – sentimentos têm esse poder. Eu encontrava mamãe num cantinho da cozinha, sentada no chão; os cabelos pra cima, encostados nos azulejos da parede, eram indício de que o corpo tinha melodramaticamente escorrido até se estatelar. Na imaginação de mamãe, o mundo devia ser um lugar cercado de câmeras, como as que ainda não existiam em lojas onde pediam para eu e o Wellington levantarmos as camisas antes de sair.

Eu dizia pra mim mesmo: quando for maior, vou me livrar das tiranias de mamãe, ser independente e abocanhar tudo o que eu quiser. Cresci e, em vez de comer, comecei a beber e a fumar. Até fazia boca de pito, mas custei pra sacar que tava gastando mais com vícios inúteis do que com o que tinha me movido pra Terra. A culpa era das promessas publicitárias investidas em hormônios, o que me impelia para atividades que acabavam em sexo, uma perda de tempo total. Superada a adolescência, fui ler Freud, aquela coisa de fase oral, e discordei, pôr na boca, mastigar e engolir não era mero estágio preparatório prum sapeca-iaiá. Meu tutu com linguiça não podia ser considerado substituto regressivo de porcaria nenhuma. A busca pela sustança, no meu caso, tinha de ser não só antecedida pela necessidade de reprodução, mas também autossuficiente. Aqui não devia nunca ser libido convertida em energia empregada na apetência.

Quando minha primeira namorada terminou comigo, precisei provar pra ela que me abandonar tinha sido um péssimo negócio. Comecei a me alimentar feito mamãe, a frequentar academia, a estudar pra concurso. Me sentia um hamster preso numa roda, correndo sem parar. Então de repente já tava namorando outra menina, não tinha mais o menor interesse na ex, mas continuava correndo. Sonhava que um dia seria gordo que nem Hitchcock, andaria sempre alinhado e teria o mesmo ar de mistério; usaria feito Borges uma bengala. Ninguém ia pensar que deixei a roda de hamster, carreira promissora, pra viver que nem glutão, me empanturrando de guloseimas. Eu seria um artista recluso, sobre o qual se especulariam fantasias fantásticas. Parecia a única saída.

Mistério, só Wellington mesmo: ainda na nossa infância, ele tinha sumido junto com o bloco de comunidade onde morava, lá perto de casa. É que, com a expansão do centro vulgo especulação imobiliária, enxotaram os favelados pruma região ainda mais periférica. Nem tudo pode com dinheiro, mas dinheiro pode com tudo, logo dinheiro é melhor. Aí juntar dinheiro vira fim em si mesmo, só vale nossa desgraça. No lugar onde ficava o quintal da casa do Wellington, cheio de pé de couve, uma jabuticabeira, árvore de carambola, chuchu se embrenhando na cerca, mangueira, no lugar disso tudo agora tem mais um prédio. Mais segurança, cerca elétrica sobre todos os muros, mamãe mais tranquila. Acho estranho couve, jabuticaba, carambola, chuchu, manga, enfim, alimento que é de coletar no quintal, de repente no supermercado, onde nem se sabe que existe pé dessas coisas. Antes, quando chão não era tudo de pedra, tinha tanto trem de graça. Agora preto passa no bairro e a associação de moradores já chama a polícia. Será que o Wellington tá se esbaldando de deglutir gulodices, ou será que também entrou numa dessas rodas de hamster? Casou, teve filhos, virou pastor evangélico, entrou pro tráfico, comprou uma emissora de TV de tanto trabalhar como camelô, liderou operários pra ascender em carreira política. Presidente da república, desses brasileiros que não desistem nunca. Sem tempo pra comer, virou bife. Bife Wellington, brand management. Neste mundo todo mundo nasce com fome e morre com fome. Por falta de comida ou por falta de tempo.

E quando a comida abunda e você acha que vai ter tempo, encher o cu, comer até transbordar dos dentes do fundo, tá que nem eu: com doença celíaca, intolerante a lactose, a comida entalando no esôfago, refluxo, pressão alta, diabetes. Os espíritas daqui dizem que fui eu que planejei isso, pra crescer com o sofrimento, mas é a justificativa deles pra manutenção das rodas de hamster. Logo eu, um ser de plano mais evoluído, imagine só. Esses espíritas daqui não sabem de nada, são uns doidivanas, porque devo ter involuído umas três vidas no arranjo da concorrência, com o tanto de ódio que alimentei das rodas que giravam mais rápido e com as risadas que dei das rodas que custavam a desenvolver o movimento circular. Religião sempre serviu pra isso, colocar esses caras pra nem sequer pensar em mudar as coisas. Ficam aí alucinados, deliram mesmo, se achando espíritos maiores, acreditando que têm como eu algum poder de chegar no entrevidas e estabelecer intenções encarnatórias. Quem eles pensam que são na fila do pão astral, pra pensar que também podem passar na frente sem que sejam cobertos de bolacha?

Acho que se eu não tivesse entrado em roda de hamster, não seria hoje essa personificação da enfermidade cheia de restrição alimentar, enclausurada na dieta. Vida na Terra é que nem cocaína, no duro, agita pra percepções imediatas, completamente alienantes, e até tira o apetite. E o injusto é que não existe outro lugar tão bom pra comer. Falando sério, batata que nunca mais piso aqui de novo.

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Principais pontos de partida do experimento:


domingo, 8 de julho de 2018

Cinema: suprassunção do teatro


A teatralidade é substituída pela intervenção esclarecedora e interpretativa da câmera, que se torna “narradora”, criando intensidade e dramaticidade através da ênfase óptica.
Anatol Rosenfeld

O cinema, enquanto conceito, é a suprassunção do teatro, ou seja, o cinema incorpora os conceitos do teatro para tornar-se novo conceito. Em outros termos, o que se chama sétima arte é ao mesmo tempo negação, afirmação e elevação do teatro (assim como, insiste-se tanto neste blog, o teatro épico é ao mesmo tempo negação, afirmação e elevação do drama).

No começo, o que se projetava no cinema não passava de filmagem do palco com a câmera enraizada no meio da plateia, isto é, enquadramento estático e aberto, pegando o corpo inteiro dos atores e a completude do cenário. Tratava-se de algo como peça gravada, nada mais do que isso, mesmo se se pensar em filmagens externas, em que não se tinha literalmente nem palco nem plateia. Com o tempo, a câmera passa a se mover, narrativamente permeando e cortando a cena. Especialmente com D. W. Griffith, desenvolvem-se ainda mais as formas épicas a partir do aparato técnico. Um zoom in no rosto do ator prestes a dormir, seguido de corte para uma cena em brumas, por exemplo, podia pela primeira vez indicar cinematograficamente a passagem para um plano onírico. O nascimento do cinema se dá, portanto, com sua especificidade que é a linguagem narrativa do corte. (Note-se que certa modalidade ainda muito vigente de cinema, contra os próprios princípios colocado na camisa de força típica de Hollywood, valoriza o disfarce – veja-se bem: o disfarce – do corte em premiações, nas categorias de melhor montagem. Sem contar que manuais de roteiro do tipo Syd Field até hoje pensam a dramaturgia cinematográfica a partir do modelo de ação peripatético.)

Todos os avanços do cinema em seus primeiros estágios retroalimentaram o teatro, que passou a contar, entre outras técnicas, com projeções. Além disso, o teatro começou a reivindicar pra si a necessidade não só do registro, mas de todos os outros avanços possibilitados com o novo meio de produção, o que já se observa na tentativa de Brecht de filmar A ópera dos três vinténs. Não é acaso o desenvolvimento do teatro épico se dar simultaneamente com o desenvolvimento do cinema.

O cinema, como o teatro épico, pode contar ou não com traços incorporados do drama, como o arco dramático. No conto da postagem anterior, por exemplo, esse traço aparece de modo irônico. O mesmo não se poderia dizer de um hipotético filme que heroicizasse a trajetória de camelô a dono de emissora de TV ou o percurso de operário a presidente da república (com direito a slogan “Sou brasileiro e não desisto nunca”). Se levado a sério, o arco dramático, travestido em termos econômicos, não é nada mais nada menos do que liberalismo idealizado. Por isso, um filme político como Arábia, de João Dumans e Affonso Uchoa, é narrado por um trabalhador em tom menor, sem heroísmo, sem superação e sem sequer espírito anti-spoiler (o prólogo trata de avisar de antemão sobre o destino funesto do personagem).

Numa certa recepção de cinema, assim como numa certa recepção de teatro, o espectador demanda escuridão e silêncio para fruir dramaticamente a obra. Há aí necessidade de envolvimento com os personagens e com a trama em que eles estão metidos, num exercício de imersão num universo à parte que desliga da realidade objetiva, proporcionando alívio das frustrações provocadas pela corrida de ratos (observe-se que a função deste tipo de arte é análoga à função alienante da religião). Já uma obra política avança para a reação do público, basta se observar, por exemplo, o distanciamento da plateia em salas de cinema que recentemente exibiram o documentário O processo, de Maria Ramos: ninguém fazia “shhh”, reclamando do barulho, durante a exibição do filme que narrou os procedimentos de cassação do mandato da ex-presidenta. Tudo era motivo de comentários, indignação explícita e até algazarra. Os mesmos efeitos Piscator, na medida em que desenvolvia seus experimentos, ia buscando em seu teatro. E também Augusto Boal.

(Iludidos de que a luta de classes foi superada com as derrotas do socialismo no século XX e por isso defensores tácitos do liberalismo e seus acessórios, pós-modernos vão dizer nossa, que antiga, ela tá falando em tendência de estilista da passarela passada, esquerda não é mais isso...)

A dimensão de figura, surgida no expressionismo como suprassunção da dimensão de personagem, aparece em filmes recentes como O jogo das decapitações, de Sérgio Bianchi, em que os atores enunciam menos uma psicologia singular do que a socialdemocracia e seus desmandos, desmandos estes que alimentam o fascismo pulsante nos regimes capitalistas. Essas mesmas dimensões de figura aparecem no conto da postagem anterior deste blog: por um lado as lutas identitárias pós-modernas no campo liberal, e por outro o homem branco hétero cis Miguel no campo fascista (notem-se assim as relações de teatro e cinema também com outras modalidades narrativas).

Esses são só alguns exemplos de como teatro e cinema fazem parte de um mesmo corpo, o das artes visuais. Ambos vão além inclusive como artes do espetáculo, do qual as exposições de artes visuais – pintura, escultura e fotografia – também fazem parte (o interesse no conceito de espetáculo – o tradicional – é justamente o link que produz com a “sociedade do espetáculo”, do Guy Debord). E se teatro e cinema priorizam formas e conteúdos políticos, inserem-se num âmbito ainda mais amplo, o literário de uma maneira geral. Ambos, teatro e cinema, têm muito mais relação do que se imagina, e é preciso tomar cuidado com imposições contrárias, especialmente aquelas que reclamam especificidades como se especificidades pudessem funcionar de modo autônomo. O pensamento dialético não admite separações, que são por princípio conservadoras. Enfim, a que interesses serve a visão de que teatro e cinema são duas linguagens completamente distintas, e que portanto devem, em suas bases de análise, ocupar cada uma o seu quadrado? Aos interesses do mercado teatral, que vive reclamando da impossibilidade de concorrência com o cinema? Que obras tão cheias de especificidades são essas, que dentro do campo das artes cênicas andam encontrando seu próprio nicho?

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Aborto social


A perfeita visão da vindita não se realiza num só momento; requer o encadear sucessivo de acontecimentos que levam do motivo inicial à desforra final.
Antonio Candido

Miguel não só tinha nome de anjo, como ainda por cima parecia uma criança inocente, sossegada, bondosa: cabelos louros cacheados, pele branquinha, curiosos olhos azuis. Subira os lances de escada da empresa desde o primeiro degrau, office-boy, quando distribuía correspondência para pagar a faculdade e um dia ter o trunfo do diploma na corrida de ratos em que haviam transformado o mundo. Agora o sucesso estava realizado: Miguel já era então bem-sucedido, ainda que preocupado na busca por valorizar-se ainda mais, o que fazia menos para alçar-se a andares superiores do que para não perder a posição – afinal, sabia-se herdeiro de ninguém. Saía de férias pra praia, uma semana, nordeste, quando escreveu em rede social que não voltava dos dias de liberdade sem comer uma mulher de cangaceiro. #PartiuMaceió bem hétero, com esse foco discreto no corno, mas não nos percamos em fofocas dos ocultos desejos sexuais do personagem, que depois da postagem silencia de tudo o celular para embarcar no voo. Cochilou quando “o céu caiu”, numa lembrança da reação infantil de quando, já adulto, vira pela primeira vez no mesmo nível as nuvens e a panorâmica azul que desmentia a visão imediata de uma “abóbada” celeste.

Ao descer em Maceió, ainda sonolento, Miguel desligou o modo avião e a chapa azul do firmamento lhe caiu sobre a cabeça: ditos feministas de todos os sexos haviam invadido seu perfil e maculado suas postagens com comentários que não se podiam mais controlar. Miguel até tentou, na verdade: começou deletando o post infeliz, mas os ataques cresciam em outras postagens. Ele então entrou nas páginas pessoais responsáveis pelo massacre, onde infelizmente já havia prints de sua desgraça inutilmente apagada, textões, compartilhamentos sem fim. Os perfis, milimetricamente construídos para funcionarem como exposição de um caráter político-moralizador ilibado, pareciam todos moldurados por indivíduos com handicap identitário que objetivavam se inserir socialmente e ao mesmo tempo se constituir como modelo. Simultaneamente senhores e escravos de si mesmos, estavam eles também na corrida de ratos, nesse jogo de seleção e eliminação a esmo tão bem reproduzido por reality show. E o chefe de Miguel muito contente mordeu a isca sem anzol: armado da demissão justificada, enviou o e-mail com ordens de que seu subordinado já bastante caro – cresceu demais – voltasse de férias e passasse no RH. A empresa não podia ter sua marca vinculada a funcionário com posições machistas ou preconceituosas com nordestinos, ora essa.

Era fim de tarde na Pajuçara e Miguel quase havia se entregado às ondas que o puxavam pro abismo do oceano. Até os cangaceiros, digo, as mulheres de cangaceiros, tinham perdido a graça. Ele estava profissionalmente liquidado. Voltou pro hotel pensando no valor da diária, quanto tempo daria pra sobreviver com o que tinha, e o pensamento em turbilhão o fez tomar o remédio. Indutor de sono era necessidade primordial antes e depois de processos seletivos – da preparação pra reunião em que precisava se destacar ou pra entrevista de seleção a cargo mais elevado, até a análise dos fracassos que o rifavam. Repassar mentalmente tudo, num exercício circular infinito, era um verdadeiro looping do inferno do qual o autêntico rato corredor nunca conseguia escapar sem um medicamento entorpecente.

O pai severo, de um lado, falava em redução da maioridade penal, exigia morte aos bandidos, condenava o desvio das normas sobre os dois sexos e não abria mão da criminalização do aborto. O pai compreensivo exigia respeito aos direitos humanos: se aceitamos liberalismo na economia, é preciso incluir no pacote a busca por igualdade na corrida de ratos e o respeito às liberdades individuais. A mãe aparecia entre os dois pais, duplos um do outro, dizendo-se contente por ambos porque enfim tinha conseguido levar a política pro âmbito doméstico. Que tudo se resolva em família, claro, imagine a barbaridade do contrário. Não é civilizado o espaço público, não. Divórcio em tribunais? Não, minha filha, melhor separação discreta, sem escândalo, tudo aqui na minha sala de jantar. Em família, no espaço gourmet. Entre as quatro paredes do seio da linhagem. É mais higiênico, menos oneroso. Pra quem? Enquanto dizia isso, a mãe se transformava num bufão grotesco pra engatar o riso descontrolado com a repetição da palavra linhagem – que linhagem? – e em seguida, abruptamente em tom sério, aconselhar o pai compreensivo: deixem diminuir a maioridade penal, assim podemos sem risco de represália comer as gostosinhas de dezesseis anos filhas de conservadores. De repente pai compreensivo e pai severo se mesclavam para um linchamento moral. Vai pro seu quarto, repreendiam os papais, os panos de prato nas mãos. Miguel então acorda de um solavanco e quase bate com a cara na câmera da gravação externa, completamente suado e ofegante.


Não era mais só atravessar a rua da Pajuçara pra voltar ao hotel. Miguel havia se transformado num encardido mendigo de praia – mais especificamente a Praia da Estação –, num morador da rua Aarão Reis desses que ganha cobertores nojentos fabricados especialmente para o nicho da mendicância. Ele já sabe que quem pratica a caridade distribuindo a mercadoria de refugo até passa o inverno falando em empatia, mas o sentimento só dura até o sem-teto aparecer instalado na calçada das nossas casas. Miguel, de anjinho a mendigo, que belo arco dramático decadente. Vagabundo safado, a antítese do trabalhador com carteira assinada, bicudado por toda sorte de moralista de redes sociais, mas agora também literalmente, ali em praça pública, a Praia da Estação. Macho escroto, bem feito que perdeu o emprego e esborrachou na condição lúmpen que é o fundo do poço social. Exército de reserva pra desvalorizar a mercadoria força de trabalho e estimular a concorrência deste produto, é isso o que você merece. Vagabundo. Homem fútil. Puto. Safado. Pistoleiro. Depravado. Pilantra. Aventureiro. Desgraçado. Toma, Miguel, anjo caído, demônio, sua única opção agora, que combina com homem branco hétero cis, é pôr-se a postos pra incorporação às fileiras do fascismo, mas não se antes a gente te tacar álcool e acender um fósforo. É assim que nós gostamos. Como diria Machado, nem todas as crianças vingam.

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Principais pontos de partida do experimento:

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Ministério das Perguntas Cretinas 3

Com as respostas do Ministério das Perguntas Cretinas 2, o Ministro ficou tão escandalizado que explodiu em violência para elaborar uma réplica e exigir tréplica a Iná Camargo Costa, incorporando, no sentido de Sérgio Buarque de Holanda, o homem cordial que mora em sua alma profunda. No vídeo que segue o final da entrevista, extraído de Ilha 70, observe-se uma figura exemplar da cordialidade, num episódio que é uma das maiores delícias de nossa história: a Novembrada. Neste post, Iná está no meme produzido a partir de captura do programa Inutrealidade, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=tI_nz00harc.

Ouso alimentar a esperança de que vocês, que me leem, tenham sido abençoados com algum senso de humor. Bertolt Brecht dizia: "nunca conheci alguém desprovido de senso de humor que tenha podido compreender a dialética de Hegel".
Leandro Konder

Ministro - Quando contesta as ciências exatas, Iná Camargo, você se esquece de que o que está fazendo o jogo da pós-verdade ali é a linguagem, esta sim ideologia, pela proximidade bem maior com as ciências humanas. Ora, você não sabia que, segundo Rancière, autor estudado por muita gente importante de esquerda, o estruturalismo superou a ilusão nesse estado de dupla anulação em que atividade de pensamento e receptividade sensível se tornam uma única realidade? Você não sabia que autores engajados como Rancière e Sarrazac são filiados a Lyotard, que inclusive decretou o fim da narrativa marxista?

Iná - Senhor Ministro: solicito uma segunda leitura das minhas respostas sobre ciências exatas! Quem as contesta são os religiosos e supersticiosos, incluídos os metafísicos da pós modernidade do tipo Lyotard, todos inspirados em Heidegger! Eu defendo o meu direito de me apropriar das conquistas da ciência e não o contrário!

Jogo da pós-verdade é marmita requentada por quem não tem memória histórica e acredita que foram as redes sociais que o inventaram. Pós-verdade é parte do discurso teológico dos chamados Pais da Igreja (entre outros, Santo Agostinho) há quase dois milênios e faz parte das convicções da chamada civilização cristã ocidental. Pense, por exemplo, nas implicações de uma proposição como "credo quia absurdum", ou "creio porque é absurdo". Se esta não for a matriz da pós-verdade, não sei o que é verdade...

Quanto a linguagem ser ideologia, vamos lá: sem perder tempo com os formuladores desta proposição horrenda (estou com preguiça de recorrer à Wikipédia), prefiro a formulação de um dos meus heróis do marxismo no campo da filosofia da linguagem. Trata-se de Bakhtin. Para ele, a própria palavra (e portanto a linguagem) é uma arena onde se trava a luta de classes como outra qualquer. É a luta de classes que decide o significado de qualquer palavra ou a validade de qualquer construção verbal. Por este critério, quem define linguagem como ideologia está no campo dos inimigos da verdade! E, voltando ao meu argumento anterior, as ciências exatas precisam da linguagem tanto quanto as humanas. Quem pensa diferente precisa então explicar como é que os cientistas se comunicam entre si e com os demais interessados (ou o conjunto da sociedade) sem a linguagem.

E já que falei em Bakhtin, combinando o que aprendi nas obras dele com as ruminações de Brecht sobre gestus, peço a devida vênia para observar que a formulação da sua pergunta contém um gestus extremamente autoritário que merece exame: desencavar e papaguear nomes valorizados pela academia não é nenhuma garantia de que você sabe do que está falando. Ao mesmo tempo, assumindo a máscara de porta-voz dessas toupeiras que passam por autoridades, você está tentando desqualificar o meu discurso. Em vista desta constatação, Senhor Ministro, daqui em diante passarei a me dirigir à sua pessoa como Coronel...

Mas voltando às suas cordiais referências, Rancière deve estar atrasado pois, segundo o boato que correu aqui neste fim-de-mundo, o estruturalismo já foi revogado pelo pós-estruturalismo. E Lyotard nem foi o primeiro a revogar o marxismo: esta "revogação" tem história mais que centenária também. Prefiro não perder tempo com brigas paroquiais francesas (no sentido católico e no sentido provinciano). Sobre as superações do marxismo, recomendo os "19 princípios para a crítica literária" do meu mestre insuperável, Roberto Schwarz. Estão no livro O pai de família e outros estudos.

Ministro - O que é que o Raymond Williams, o cara que inventou os estudos culturais, tem a pachorra de falar contra o Lukács? Se você, Iná Camargo, não está disposta a repetir, porque acha que alguém devia estar de ir naquela fonte?

Iná - Está bem, Coronel, segue a citação: "a caracterização que Lukács faz do movimento essencial do romance realista do século XIX como a descoberta, pelo herói dramático, dos limites de uma sociedade injusta, embora seja importante, é baseada predominantemente na ficção francesa e em alguma ficção russa, e não no romance realista como um todo". Estas são as palavras dele, Raymond Williams. Para ele, um dos erros de Lukács é trabalhar com a ideia de que há uma realidade social preexistente à qual o modelo literário pode ser comparado. No século XX isto se transforma em obstáculo à sua percepção de obras como as de Kafka ou Joyce, porque ele definiu previamente como decadente a realidade a que corresponde este tipo de ficção. Isto é uma idealização da sociedade capitalista do século XIX e, por consequência, dá ao realismo (que Lukács defende) um sentido historicamente reacionário. Com pequenas alterações, foi isto o que escrevi no prefácio daquele livro. Chega, ou o Coronel quer mais? Continuo insistindo no ponto: é melhor ler o que o próprio Williams escreveu sobre o assunto.

Ministro - Como é que alguém que fez um mestrado sobre Dias Gomes nega a teledramaturgia nacional desse jeito? É por isso, Iná Camargo, que você renega seu passado e esconde a sua dissertação? Está cuspindo no prato que comeu?

Iná - Para negar a teledramaturgia nacional eu precisaria tomar conhecimento dela. Como não é o caso... Mas não renego o meu passado. Pelo contrário: neste ano de 2017 autorizei a publicação do referido mestrado sobre Dias Gomes e, revendo o texto finalmente digitado, concluí que só precisava mudar algumas vírgulas e um ou outro episódio de redação. O argumento – sobre o dramaturgo e não sobre o autor de telenovelas – se mantém inalterado, conforme afirmei na apresentação, onde também explico por que não passava pela cabeça de ninguém naqueles idos de 1980 publicar uma simples dissertação de mestrado. Quando o livro sair, vou cobrar a sua leitura! É favor anotar o título: Dias Gomes: um dramaturgo nacional-popular.

Ministro - Ao falar contra a diferança, Iná Camargo, você ignora a errance da produção poética contemporânea, essa vagabondage que não ancora sua consistência em significado histórico ou climático. Como ficamos? Sem aparato teórico, por acaso?

Iná - Claro que ignoro! Se eu tiver tempo sobrando, vou aproveitá-lo para rever os filmes de Eisenstein, reler as peças de Maiakovski, Tretiakov, Brecht e os ensaios de Meyerhold (são quatro volumes na edição francesa). A vagabondage e a errance da produção poética contemporânea são problemas postos para vocês que têm menos de 40. Como aposentada, idosa e portadora de necessidades especiais, tenho o direito de escolher como melhor me aprouver o que fazer com o meu tempo livre. O aparato teórico para vagabundear na errância poética pode ser o recomendado pela mesma academia que o Prof. Schwarz criticou nos "19 princípios" acima referidos. Por exemplo, o 19º: "Muito cuidado com o óbvio. O mais seguro é documentá-lo sempre estatisticamente! Use um gráfico se houver espaço." (E pensar que ele escreveu isto em 1970...)

Ministro - É impressão minha, Iná Camargo, ou com "até os índios perceberam" você chamou os índios de burros? Você então acha que essa palhaçada pseudocientífica de homem branco europeu, travestida de suposta superioridade intelectual e avanço técnico, tem de ser enfiada feito ovo quente goela dos índios abaixo? Você está querendo subverter a capacidade individual, natural e genial de em lugares de fala eles combaterem seus inimigos? Vai querer também jogar no lixo nossos heróis Peri e Iracema? Nosso grande José de Alencar? A beleza nacional das nossas melhores obras literárias?

Iná - Agora, Coronel, você adotou o método jesuítico: quem considerava burros os índios eram exatamente os jesuítas e os franciscanos (entre outras ordens religiosas que infestaram o nosso sertão). O que eu disse foi que não precisava do traquejo supostamente civilizado do europeu para ver o óbvio: frades são parasitas por definição. Quem vê o óbvio é mais inteligente que muito intelectual europeu, como parece ser o caso dos que infestam o seu ministério. Por outro lado, quem já se deu ao trabalho de ler o Lévi-Strauss do Pensamento selvagem sabe muito bem que a sua pesquisa – realizada no Brasil e apoiada por Mário de Andrade – demonstrou empiricamente a capacidade de racionalização e observação muito maior entre os índios que entre civilizados. Posso muito bem incluir no argumento de Lévi-Strauss o caso do apelido "tucuruvi" dado aos franciscanos: enquanto os homens, ditos civilizados, educados pelos sacerdotes, naturalizaram o dízimo, nossos índios estranharam a atitude esmoler daqueles gafanhotos...

Nós, descendentes de índias, jamais caímos na conversa dos indianistas estilo José de Alencar. Eles apenas usaram referências francesas para criar personagens europeus fantasiados de índios e falando português de Portugal. O professor Fernando Novais já demonstrou que Peri não passa de um cavaleiro medieval de tanga... E por falar em Peri, você já analisou a ópera de Carlos Gomes, em que a certa altura este herói medieval aguarda impertérrito o inimigo?

Ministro - A astrologia, quando usada para a busca de multiplicar as próprias perspectivas, não é válida? Você, Iná Camargo, concorda mesmo com generalizar toda utilização de meios como esse para interpretações deterministas, premonitórias, metafísicas sem possibilidade de desenvolvimento do intelecto? Os mitos devem ser jogados no lixo, não servem pra nada?

Iná - Como parte da pré história da humanidade, mitos servem para ser estudados com os conceitos produzidos pela ciência do movimento do pensamento, também conhecida como dialética. Ou para serem criticados, como fizeram dialéticos modernos da estatura de David Strauss e Ludwig Feuerbach com os mitos bíblicos. Ou como fez Voltaire, que não deixou escapar nenhum tipo de charlatanismo em seu Tratado sobre a tolerância. Como leitora de Voltaire, tenho o direito de me indignar com os absurdos da astrologia que tem por pressuposto o geocentrismo, reconhecido como errado até pela Igreja Católica, como já foi dito. Você sabia que, em sua temporada de exílio nos Estados Unidos, Adorno fez um estudo minucioso da coluna de astrologia do Los Angeles Times? Este estudo de sociologia psicanaliticamente orientada foi publicado no Brasil com o delicioso título As estrelas descem à terra. Veja o que ele diz, en passant, na página 139: "A ciência é a má consciência do ocultismo, e quanto mais irracional a justificativa de suas pretensões, maior a ênfase na afirmação de que não há charlatanismo envolvido." (Com a concomitante adoção de um discurso pseudo-científico que é abertamente conservador).

Produtores e consumidores de mitos hoje estão igualmente atolados na ignorância (socialmente produzida, como sabemos) e na superstição. A própria produção da auto-imagem do intelectual cordial é parte deste jogo: ignorância que passa por conhecimento porque travestida de coleção de citações, inclusive incompatíveis entre si, como já observou Sérgio Buarque. O que prolifera de sabichão pelo mundo afora não é brincadeira!

Ministro - Seu ídolo Bertolt Brecht, que inclusive defendia a homeopatia, não produziu um mito em que deuses encontram uma alma boa em Setsuan?

Iná - Como diriam os portugueses, não alcanço compreender o que a homeopatia tem a ver com isso, pois homeopatia é ciência rigorosamente experimental que dialoga diretamente com a física molecular mais exigente. Gostaria também de lembrar que os deuses de Setsuan só aparecem nos sonhos delirantes de um carregador de água faminto e miserável... Continuo afirmando que Brecht deu continuidade à luta artística dos naturalistas que expunham todo tipo de misérias a que os trabalhadores são submetidos, inclusive nessa peça. Em outras palavras: como materialista, expôs uma importante função do mito.

Ministro - Como assim a Escola de Frankfurt está sendo posta em xeque? Você ficou com raiva do Adorno mostrar que a perfeição da obra do Brecht é mentira? Te incomoda, Iná Camargo, o crítico ter provado que o dramaturgo precisa ser lido observando-se os pontos altos e baixos dos textos teatrais e consequentemente se pensando a variação e a experimentação? Te deu recalque que o engagement tenha imposto limites à sua veneração, provocado a percepção generalizada da queda de qualidade nas coisas que o ídolo Bertolt Brecht fazia? Enfim, a descoberta dos pés de barro estremeceu o fã-clube?

Iná - O Coronel se refere à afirmação "ideologia liberal travestida de teoria crítica"? Então é isso mesmo! Só acrescento "temperada por clichês social-democratas". Não vou repetir os argumentos que já apresentei contra as afirmações acima resumidas em estilo (e agressividade) de intelectual cordial. Segue bibliografia: as opiniões de Adorno contra e a favor do engajamento foram minuciosamente debatidas no ensaio "Brecht, Adorno e o interesse do engajamento", que está no livro Sinta o drama, publicado pela Editora Vozes em 1998. E os evidentes erros da leitura que Adorno fez de uma peça como A decisão, de Brecht, foram expostos em ensaio a ser publicado no próximo ano no volume Lenin e Brecht, duas revoluções. Vocês não perdem por esperar!

Ministro - Vi no programa Disputa de Pensamento, indicado no texto de abertura do último Ministério, o seu desprezo pelas políticas de educação na era petista. Ainda que o investimento de Lula e Dilma tenha sido o mais alto da história no ensino federal, pra gente como você, Iná Camargo, nada nunca foi satisfatório. Dezenas de universidades e IFs foram criados e ampliados, mas pra gente como você sempre foi pouco. Para gente como você, o PT é taxado de ter feito um governo neoliberal. Você não sabe discernir bem o que é possível fazer no Brasil, como Bernstein sabia na Alemanha e Lukács na URSS? Em um país como o nosso, o que efetivamente foi feito diferencia drasticamente os governos do PT da direita, assim como num mundo como o nosso o que efetivamente foi feito diferenciava drasticamente o comunismo num só país do capitalismo norte-americano. Não sejamos míopes: o projeto do PT para o Brasil era como o do Stalin para a URSS, de crescimento e educação de qualidade, para todas e todos. Você se esquece? Quer mesmo ser cegada pelas lentes midiáticas, do mercado, dos utopismos inconsequentes?

Iná - Como disse naquela entrevista, por ser professora convicta, não posso perder tempo com aquela fraude educacional. Investir em educação não pode significar apenas DINHEIRO, pois esta é a língua que o mercado fala. Também não posso me dar ao trabalho de explicar a diferença entre um projeto abertamente neoliberal como o do PSDB e outro abertamente inspirado na Rerum Novarum que espalhou migalhas pelo país afora, a começar por bolsas que encheram os cofres das empresas que exploram uma mercadoria chamada educação.

De pragmatismos como o inaugurado por Eduard Bernstein na Alemanha e levado às últimas consequências por Lukács como integrante da pirâmide stalinista (segundo a caracterização dele mesmo na Carta sobre o stalinismo), eu quero toda a distância possível. É uma das minhas razões para não perder tempo com o exame da malograda aventura petista. Esta Cassandra avisou ainda no início dos anos 80 que os resultados seriam do tipo destes que ainda estamos vendo desde 2013.

Ministro - Nessa insistência com o épico, você vai querer que até no cinema todo mundo faça igual, que nem aquele filme que você ajudou a escrever, no qual nada acontece e que ninguém entende?

Iná - Esse negócio de querer que todo mundo faça igual é uma bobagem que nem o mercado endossa (sem prejuízo dos investimentos em fórmulas que dão certo). Como democrata radical, acho que em arte cada um deve fazer o que e como bem entende. Mas me reservo o direito de depois opinar. Se achar que deu certo, aplaudo e, se achar que deu errado, tento mostrar como e por quê. De preferência, argumentando. Quanto ao filme que "ajudei" a escrever, o Quanto vale, ou é por quilo?, do Sergio Bianchi, acho mesmo que é um bom exemplo das infinitas possibilidades que tem o cinema de trabalhar com vários tipos de material, inclusive documentos diversos: um conto de Machado de Assis como ponto de partida; textos de pesquisa em arquivos do judiciário sobre a generalização dos valores da escravidão para o conjunto da sociedade (a começar pelo escravo como propriedade inclusive de negros); observações factuais sobre a mercantilização da pobreza que caracteriza as ONGs; mais alguns pitacos de uma imaginação bem fundamentada em fatos. Quem não entende o filme e acha que ali não acontece nada deve estar viciado em traminhas fáceis como as dos filmes de super-heróis de Hollywood, cujos roteiros são escritos pensando em crianças de seis anos de idade... Eu prefiro filmes para adultos. E fiquei sabendo que a Carrie Fisher também preferia: ela tinha vergonha de ter feito a princesa Lea naquela série ridícula (deste ponto de vista) chamada Star wars...

Ministro - Muito me preocupa, Iná Camargo, esse fatalismo nos filmes do Sérgio Bianchi, todos sem nenhuma solução possível. Você não tem medo da defesa da escatologia, nesse tipo de trabalho, no sentido de uma história do fim do mundo, ou do fim da humanidade, como se tudo se devesse ao monstro do capetalismo?

Iná - Coronel, vou começar a reagir com indignação a cada referência religiosa em seu discurso! Capetalismo remete novamente aos discursos pautados pelo Vaticano desde a encíclica Rerum Novarum! Como se o sistema capitalista fosse uma criação do demônio e não tivesse nada a ver com iniciativas, ações e reações total e exclusivamente humanas. Seguindo a lógica dos que pensam em capetalismo, bastaria rezar um pouco para exorcizarmos o capeta, mas preservando o sistema que, por sinal, é totalmente abençoado pela Santa Madre Igreja...

Quanto a ver fatalismo nos filmes do Sergio Bianchi, gostaria de lembrar que eram exatamente os fatalistas católicos (eles são fatalistas porque consideram insondáveis os desígnios de deus) que atribuíam ao naturalismo essa pecha de fatalismo (porque entendiam determinismo não como explicação científica – eles eram muito ignorantes! – mas como destino fatal e implacável). Sergio Bianchi faz exatamente como os naturalistas e depois os seus continuadores: expõe os problemas que identifica na sociedade e espera que, refletindo sobre eles, o público decida se está bom assim ou é preciso mudar. Em outra formulação: não se trata de apresentar futuro impossível, fim do mundo e demais bobagens escatológicas, mas de presente insuportável. Por que você não olha ao seu redor e se pergunta se vê na sua própria vida coisas semelhantes às que estão no filme, em vez de pedir ao cineasta que apresente um futuro? Futuro, se tivermos, será obra das vítimas do sistema que lutam para destruí-lo e não de artistas que, no máximo, podem simpatizar com esta ou aquela proposta de luta.

Ministro - Minha esposa, intelectual dos estudos literários indianistas, feminista engajada que só usa referências mulheres, a começar por Kristeva, teve um delíquio enquanto lia o último Ministério. Impeliu-se para trás horrorizada e infartou enquanto, de olhos arregalados, escorria na parede para o chão. Situação gravíssima. As reações aqui em casa, tanto de homens de bem e mães de família quanto de irmãos, filhos e agregados, foram mais trágicas que o desmaio de Anna Karenina quando Wronsky cai do cavalo. Você, Iná Camargo, é mesmo uma herege? Quer ser excomungada? Não tem consciência?

Iná - Sem querer dar aula de direito canônico, tenho o máximo prazer em informar ao senhor Coronel que o braço armado da Santa Madre Igreja não tem mais nenhum alcance sobre a minha pessoa. Explico-me: na condição de apóstata – isto é: quem anuncia publicamente a sua condição ateia, renegando a formação que lhe foi imposta pela igreja – esta instituição não tem poder para me declarar herege e muito menos para excomungar a quem já se excluiu por deliberação (consciente), o que define a apostasia. Ao que eu saiba, depois da Teologia da Libertação, devidamente enquadrada pelo Cardeal Ratzinger (que depois virou o papa Bento XVI), não apareceu mais nenhuma heresia. Hereges são os que recusam algum dogma. Não pode ser o caso de quem recusa a totalidade da coisa, a começar pelo mito bíblico da criação e tudo o mais que está resumido no Magistério da Igreja.

Quanto às reações aí na sua família ampliada, aposto que foram os seus agregados os primeiros a partir para a gritaria. Por outro lado, pergunto: por que o senhor não exerceu a sua autoridade, censurando a entrevista e impedindo todo mundo de ter acesso a ela, já que todos aí são por definição de "menor idade" e não dispõem das luzes que lhes permitiriam ousar saber?

Para encerrar com uma questão literária: o desmaio de Anna Karenina foi dramático. Espero que seu uso de "trágico" na pergunta tenha sido meramente adjetivo, como ensina nosso mestre Anatol Rosenfeld. Mas ainda assim eu preferiria catastrófico...


segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Happy hour

Espetáculo do Mayombe Grupo de Teatro. Encenação assistida em 27 de maio de 2017, em Belo Horizonte. As imagens que ilustram o espetáculo neste post foram retiradas da página do evento no Facebook: https://goo.gl/3fNdQy.

Tínhamos dinheiro em caixa para duas semanas. Grito de guerra: estreia ou fome! Nos primeiros anos, quando íamos comer no botequim, contávamos o dinheiro e depois olhávamos a lista de preços à direita, não a dos pratos, à esquerda.
Augusto Boal

"Já imaginou a vida sem a sensação de fim de ano, de finzinho do mês? Sexta-feira não é um dia. É um sentimento". Aí está o que Happy hour cifra já no próprio título: a ilusão de liberdade só possível nos momentos de pausa do trabalho alienado. Se a vida anda no limite, insuportável, justifica-se a saída para tomar uma cerveja, mas o objetivo é beber para não pensar, diferentemente do que sugere um bate-boca em mesa de boteco, onde se imaginaria o tratamento de assuntos substancialmente da esfera pública. Aí a cumplicidade entre homens serve para selar o acordo de ignorar o problema da impossibilidade da própria vida, por isso mesmo na aceitação de uma falsa liberdade que depende do tolhimento da liberdade de quem está ainda mais embaixo na estratificação social. Disso se trata a peça – dois homens se encontram e validam um pacto pela falsa liberdade, vivendo, em happy hours, o mais baixo da degradação humana, que chega ao cúmulo do assassinato.

A liberdade efêmera tanto não passa de ilusão que mesmo para comer um salgado ou tomar um copo de pinga ou cerveja as figuras em cena precisam tirá-los de gaiolas do cenário, interdição que enuncia o cálculo antes do gasto com até as mais irrisórias das mercadorias. Tudo isso denuncia a impossibilidade, provocada pela espoliação da produção, de trabalhadores terem governo de si mesmos dentro da (falta de) lógica capitalista, sejam esses trabalhadores da esteira fabril de tijolos ou da esteira fabril de artigos e teses. A condição degradante a que estão submetidos se reproduz no happy hour, quando se replica a repressão em quem está no andar inferior: a mulher e, de uma maneira mais ampla, o feminino, inclusive no gay e na travesti, justamente por se tratar do gênero mais rebaixado na divisão do trabalho. "Homem que é homem vai no puteiro e come de graça" quer dizer, em outras palavras, que para ser homem é preciso explorar a mulher, expropriar o outro condicionado ao sexo dito inferior, numa espécie de revide catártico não no patrão, mas em quem está refém de um grau maior de subserviência (incluindo quem ousa, voluntariamente ou não, confundir a divisão binária com trejeitos efeminados e práticas homoeróticas).

Assim como no naturalismo, os dois homens em cena se apresentam de maneira viscosa, grotesca, degradante. Eles são representados como animais não simplesmente por uma redução formal supostamente típica do naturalismo, mas pela condição da classe trabalhadora na sociedade de classes, submetida à umidade dos calabouços a que está restrita. Os baldes metálicos no cenário são inclusive análogos a penicos, latrinas.

Além do diálogo produtivo com o naturalismo, o espetáculo conversa também com o expressionismo: os homens em cena não são propriamente personagens com psicologia singular, mas figuras, Homem 1 e Homem 2. No início, eles inclusive parecem operar como se fossem um a consciência do outro. No plano da consciência alienada, representado num dos atores, a martelação com obrigações do dia a dia não sai do pensamento aprisionado. No plano da ilusão, representado no outro, a falsa liberdade incentiva uma autoridade embasada na noção machista de que "homem que é homem não pede, manda". Ambos são o mesmo homem e simultaneamente todos os homens do mesmo período histórico de exploração das forças de trabalho, dois homens que, repercutindo os patrões, ostentam a própria macheza como quem anuncia produto em mercado. O vídeo projetado, "Manual prático de como escrever homem com agá maiúsculo", é exemplar nesse sentido. Nele desfilam máximas como "o homem é o provedor", "homem tem que ter cabelo curto e bigode grosso" e "homem que é homem não tem frescura na hora de comer". Aí os cortes das cenas lembram canal de televenda, o que culmina com o foco na utilização de martelo, serrote, serra elétrica e furadeira, denunciando o caráter artificial da masculinidade então reduzida a mercadoria. É de se contorcer de rir. "Repreenda toda atitude que ameace a tradição secular do homem com agá maiúsculo", isto é, desmistificando o fetichismo, repreenda toda atitude que tire do homem o lugar de privilégio na divisão sexual do trabalho, que desmascare a verdade de que a mulher, escrava do lar independentemente das atividades fora e mão de obra barata onde quer que seja, é quem faz os trabalhos mais duros e em maior quantidade, inclusive durante horários de happy hours.

Para observar o espetáculo no que ele tem de mais profundamente significativo, não se pode limitar a leitura à passagem genérica do estado de natureza (homem x mulher) ao estado de cultura (masculino x feminino). Embasada ou não na dimensão que aponta como culturais mesmo os traços tidos como naturais (pela dificuldade de estabelecer o que os define, a anatomia, os cromossomos ou os hormônios, tudo passível de múltiplas variações), a oposição binária ao invés de desconstruída de significado, como se silenciada deixasse de existir, deveria ser criticada dialeticamente considerando-se as mediações com a exploração do trabalho. Como diria Antonio Candido em "A passagem do dois ao três", "entre o cru e o cozido, avultam os meios segundo os quais é possível cozer os alimentos e determinar como e por quem são consumidos": pelo homem que vence o meio, pelo homem que é vencido pelo meio ou pela mulher e o LGBT explorados e adaptados à distância de quem luta, ainda que na ilusão de que estão lutando?

No final da apresentação, o espetáculo como um todo dialético regride à díade antidialética numa espécie de pedido de desculpas às mulheres e LGBTs ofendidos, sinal de que sabe que o público está adestrado, sob a ideologia do politicamente correto, a se revoltar contra o humor que demanda distanciamento crítico. Enfim, o politicamente correto exige modelos de comportamento a seguir, como num drama burguês, romântico, e não exemplos de conduta a criticar, como numa peça de teatro épico, descendente das lutas dos trabalhadores em movimentos como o naturalismo e o expressionismo.